sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Anita vai à nutricionista

Experiências novas. Gosto. E preciso.
Quis a sorte premiar-me com um pack de três consultas de nutrição. "Olha que bem, hein?! O próprio destino a enviar-me indirectas!", pensei eu. Verdade admitida: preciso de perder o (pouco) peso que me restou da gravidez e já percebi que isso não vai acontecer com a indolência e a anarquia alimentar que têm caracterizado os meus dias.

Sempre pensei que voltava a fazer exercício físico e, com o embalo,  ajustava a alimentação. Mas será ao contrário, porque a sorte, lá está, premiou-me com conselhos de nutrição. E porque é  mais fácil alterar a alimentação do que deixar a bebé umas horas e sair de casa.
Uma coisa de cada vez? Uma coisa de cada vez.

Quis a dietista Tânia Camões, parceira da Mais Vida Gestantes, saber quem cozinha, como se come cá em casa, em quanto tempo se come, que espaço ocupam os legumes, a carne e o peixe no prato... Eu sabia que uma consulta deste género ia tocar em feridas!

O veredito? Foi aguado! Chá! Chá!

E o que eu (não) gosto de chá! Ui, ui... Quatro chávenas de água quentinha por dia? Sim senhora, podia ser bem pior o "castigo". Podia ser chá sem açucar, por exemplo! Ai é isso mesmo, sem açucar? Glup. Sim senhora, assim será. Podia ser pior. Podia ser chá de ameixa seca, por exemplo. Ai, também é para beber isso pela manhã, morninho? Glup. Sim senhora. E sem açucar, pois.
Verdade seja dita, não há-de ser assim tão mau.
 


A juntar aos líquidos, as fibras. Agora é que eu vou estar na moda também. Sementes de linhaça na sopa? Sim senhora, assim será. Sopa duas vezes por dia, consegue? Vou conseguir... Assim consiga eu ter tempo para as fazer :)

Podia ser pior, certo? Podia, por exemplo, sugerir-me não pôr a manteiga na torrada!
Ai... é para cortar com a dita cuja? Ao pequeno-almoço só..? E também ao lanche! Hum...
Sim senhora! Sobreviverei, tenho a certeza.

Mas...  A altura do ano é ingrata para ajustar a dieta!!! Concordámos.
E ia jurar que, enquanto conversávamos, o cheiro a rabanadas e sonhos foi-se intensificando.
Arranjámos um compromisso (é sempre possível, eu sabia!). O Natal vai  poder apoderar-se de mim à mesa, mas com algumas alterações, face a anos anteriores:

1. O prato da sobremesa vai levar um bocadinho de cada doce e não será recarregado!
2. Pasme-se! Posso comer tronco de Natal ao pequeno almoço! Yupiiii. Foi uma negociação perfeita esta! Nada como uma dietista sensível à quadra natalícia :)
3. Posso deliciar-me com o bacalhau espiritual, os sonhos de abóbora e tal, mas não devo levar a marmita dos restos para casa... Opá... Não sei, não sei... dá-me tanto jeito largar a cozinha uns dias...
 
 
Um, dois, três. O combate começou.
No final de Janeiro conversamos.



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Duas meninas

Podia falar sobre muita coisa hoje. Nos aniversários pode-se sempre falar do que se quiser. E hoje completam-se dois meses de vida da Mel.
E não consigo arranjar um tema.

A minha filha cresce a cada dia e eu tenho a felicidade de a ajudar a aninhar-se neste mundo, todos os dias, todos os minutos. E é bom esta coisa de pormos alguém no mundo e podermos amá-la e orientá-la à nossa medida. Pelo menos, até um certo dia.

Vou falar então sobre esta coisa do amor. Por uma menina.
Quis muito uma menina. Quis muito. Algumas vezes, adormeci o sentimento em mim mesma, para não dar o alerta à ingratidão e à frustração. Afinal, eu queria um bebé para habitar a vida comigo, para sempre. Ia amá-lo incondicionalmente, sempre. Mas, quando a médica me desse o veredicto - "é um menino!" -, sei que ia sorrir por fora e por dentro, mas tinha muito medo de baixinho, baixinho, pensar que "a menina vem a seguir, para fazer companhia ao mano".

Quis muito uma menina. Mas se tivesse um menino, ia amá-lo igual. Tenho sempre necessidade de acrescentar isto, não vá a vida querer castigar-me por ter preferências para o meu primeiro rebento. Parece que não se pode pensar assim, que é feio.

Fez-me a vida a vontade (Obrigada vida! Obrigada!).
Dois meses de menina com menina.

Não passei pela fase do "nasceste mas acho que ainda não te amo". Amei-te logo, logo. As hormonas, neste campo, não tiveram qualquer hipótese. Mas, ainda assim, me questiono, algumas vezes, baixinho, baixinho, o que me levou a querer tanto ter uma menina neste início de vida de mãe.

Quando te visto as collants cor-de-rosa, que selecionei para fazerem pendant com o vestido de finas florinhas e o gorrinho de crochet, penso que é por isso. Revivalismos de menina quando vestia as suas bonecas. Será? Todas as meninas sonham ter um dia no colo uma bonequinha que realmente respire, chore, fale e sorria?

E os meninos, sonham ter meninos para poderem jogar à bola e brincar novamente com carrinhos sem parecer mal?

Tem que haver mais qualquer coisa.

Quando paramos no tempo a olhar uma para a outra, tu à procura do soninho, eu à espera que adormeças, penso na cumplicidade que espero que venhamos a ter, afinal, somos duas meninas, com 33 anos de diferença apenas. Acho que nos podemos entender bem nas meninices. Sei brincar às cozinhas, perceber a urgência de um totó no cabelo, apreciar uma saia com folhinhos, suportar o cor-de-rosa como cor dominante... Então, tem tudo a ver com nívies de segurança mínimos para começar esta aventura?

Deve haver mais qualquer coisa.
Mas também não interessa muito. Ou nada.
Esta coisa do amor nâo tem  que ter conclusões.
É amor pronto.
Neste caso, de uma menina por uma menina.








sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Isto está a correr bem

Há várias coisas que me indicam que esta coisa de ser mãe está a correr como deve ser. Todos os dias me surgem confirmações daqui e dali. Eis algumas de que me lembro...


Abandonei o lugar do pendura (quando não sou eu a motorista) para me instalar ao lado do ovinho e ir olhando de minuto a minuto a minha bebé, mesmo que ela esteja a dormir profundamente e sem "guinchar"

Vejo muito mais potenciais maus condutores na estrada, prontos para bater no meu carro, justamente no lado da bebé e, por isso, vou fazendo "aiii" e "ezzzttt" com grande frequência

Parecia-me impossível tomar banho quando não estivesse mais algum "fiscal" em casa. Passado um mês, já o faço com relativo à vontade, chegando mesmo a pôr cremes nas "calmas". Sem stress :)

Olho para a minha menina, sorrio e digo-lhe que é a coisa mais linda da minha vida, dezenas de vezes por dia, sem me cansar

Cá em casa fala-se bebezês a maior parte do tempo, às vezes, até só entre adultos

Invento canções de embalar com letras que até tenho vergonha de repetir ao pé de alguém com mais do dois meses de idade!

Estou realmente convencida de que é linda e que este julgamento é imparcial, nada tem a ver com o facto de ser minha filha. É linda mesmo, pronto!

Fui rude com uma senhora que tentava fazer-lhe festas numa clínica. Depois arrependi-me e percebi que podia ter feito o mesmo, mas mais subtilmente (esta coisa das hormonas também não ajuda!). De qualquer das formas, se já era refilona, agora sei que vou contra o que for preciso para defender a minha cria!

Faço filmes com a Mel a dormir, daqueles que só uma mãe acha graça em rever

Festejo a "chegada" de cocós  e a saída de "puns". E falo sobre o assunto com outras pessoas que podem não estar sensibilizadas para o assunto.

Domino a arte da preparação do biberon

Consigo comer só com uma mão, bem como executar outras tarefas domésticas, deixando a restante disponível para pegar a menina ao colo

Já percebi que o mundo não acaba de cada vez que ela se engasga

Já sei distinguir os vários tipos de choro - o da fome, o da fralda suja, o do sono, o de tudo e nada - , com um grau satisfatório de sucesso

Consigo deixá-la chorar alguns minutos sozinha (quando o choro não é, de facto, muito esgoelado!) sem correr a dar-lhe colo

Consigo estar até cerca de quatro horas sem ela, para tratar de assuntos mesmo importantes e urgentes

Já penso no dia em que vou ter que a mudar para o quarto dela e acho que já consigo perceber o sentimento dos pais quando um filho emigra.

                                                                                                                                           [Continua...]



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sopinha ao lanche também faz bem

9h30
Abro os olhos a custo, parece-me sempre que ficava a dormir a manhã toda, se me deixassem. E eu que nunca fui dorminhoca.
A Inês pede leitinho, e eu dou-lhe. Mudo-lhe a fralda e aguardo que durma. Faço, entretanto, mentalmente, o plano para as horas seguintes. Tomar o pequeno-almoço, arrumar a loiça da máquina e organizar algumas na cozinha, que ficaram pendentes do dia anterior, tratar dos biberons, tirar qualquer coisa para o almoço e para o jantar, fazer as camas, lavar e vestir, estender a roupa e preparar a próxima máquina...

Inês de olhinhos fechados? Sinal  de partida, está a contar.
Leite, paio, manteiga, pão, torradeira na mesa... O que é isto? A Inês já chora?
Como à pressa, tentando sempre fingir que não oiço o chorinho, que é só de sono e não de dor.
No último gole de leite, já me estou a levantar. Vou acudir a urgência.

11h30
Ainda não consegui fazer nada do que planeei.
A Inês insiste em olhar-me de olho arregalado, aconchegada no meu colo quentinho. Eu gostava muito que voltasse a dormir para me poder despachar mas, ao mesmo tempo, perco-me a pensar em como não há nada mais importante do que estar ali. 

12h30
Inês pede leitinho. A mãe dá leitinho outra vez. E pensa: Ok, vou fazer sopa para o almoço e os bifes de frango para o jantar. Que desenrascada, ainda ouso pensar, convencida de que, a seguir, já com a barriguinha cheia, a Inês vai entender que tem que dormir sozinha para a mãe conseguir fazer as coisas normais da casa e, em concreto, despachar o almocinho, que já se faz tarde.
Mas não.

15h00
A cozinha está em condições de começar a fazer a sopa. O jantar já está temperado, os biberons impecáveis. Os legumes na bancada, à espera da sua hora. 

16h00
A sopa está no prato. Vou almoçar. Rápido, que daí a meia hora, a Inês precisa de "lanchar".

17h30
Vesti-me. Estendi a roupa. Puxei as orelhas às camas. Liguei o computador e vim escrever para o meu blogue, sobre esta dificuldade que é, às vezes, conseguir levar a cabo um conjunto de tarefas relativamente simples e rápidas de realizar. 

O tempo passou a ser muito mais exigente comigo. E eu acho bem.
Agora tenho que ser muito mais focada naquilo que quero fazer, muito mais mais objectiva, muito mais prática, muito mais flexível e muito mais eficaz.

E também menos dramática. Se ainda não deu para arrumar a roupa que está  passada desde a semana passada à espera de voltar às gavetas, é porque ainda não era para ser hoje. 
Pronto.
Amanhã também é dia. 




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Doze badaladas, Cinderela!



Não sei quem está a proteger quem, se sou eu que a protejo, se é ela que me protege.
Lembro-me de pensar várias vezes isto durante a gravidez. Não apanhei uma constipação, as crises alérgicas hibernaram e não houve maleita de relevo que me pegasse durante 38 semanas.

A esta "paz" clínica, juntaram-se outras coisas boas... Algumas inesperadas, como o facto dos pêlos crescerem infinitamente mais devagar - por esta não esperava mesmo, alguém sabia disto!?
A barriga cresceu, arredondada, e o resto do corpo harmonizou-se. "Que grávida tão bonita!", ouvi isto dezenas de vezes. E concordava, o que é ainda mais surpreendente. A felicidade que vem de dentro, com muita força, transparece cá para fora, isto já eu tinha constatado. 
E o cabelo? Brilhava.
E a pele? Reluzente.
A relação de uma grávida com o corpo muda extraordinariamente. Ficamos realmente mais bonitas, ou é só a felicidade que nos coloca filtros? Ou é só a felicidade que nos tira os filtros?

O efeito Cinderela terminou.
Ainda deu para chegar a casa na carruagem engalanada mas, duas (terão sido três?) semanas depois, o relógio deu as doze badaladas. 


É estranho perceber como, a seguir ao parto, ainda o corpo não tem as comunicações actualizadas. A mão ainda acaricia a barriga com aquela ternura, mesmo que o bebé esteja ali ao lado a dizer-nos: Já não estou aíííí! E não é que parece que algo ainda mexe lá dentro?

Nestas primeiras horas, ou dias, as feridas da "guerra" contam pouco, tomam-se os comprimidos que há a tomar, faz-se o repouso que há a fazer, vive-se o que há a viver, com as novas regras.

"Sobrou isto?", pensei para mim na primeira vez em que me olhei ao espelho, com olhos de ver. Sentia-me magra. Magríssima. Sentia, sobretudo falta da minha barriga.

Umas semanas depois, a Cinderela voltou à cozinha.
Já sem a barriga redondinha dos pontapés, já com o cabelo estragadito, sem brilho, sem jeito e a cair pela casa, já com a pele menos reluzente, já com as formas a pedir harmonia.

As roupas ficaram largas. Arrumo o calção de ganga de grávida, preparo-o para devolver, e custa-me. Que raio. Visto as leggings de grávida e dobro a cinta para baixo, fica ridículo, mas dá-me aconchego à alma. Que raio. As roupas "normais" ainda não me aceitaram. Que raio. Não tenho nada para vestir. Preciso voltar a minha forma habitual. Afinal, não estou magríssima. 

Mudei foi de conto de fadas e agora sou a bruxa má que faz perguntas escusadas ao espelho :)






segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O fim do mundo em cuecas

Amanheceu mas parece que não dormi nada ou, pelo menos, que não descansei.
De três em três horas o "relogiozinho" toca religiosamente, que é como quem diz, a Inês faz aquele barulhinho delicado de gatinha. Está a chorar, tem fome. Levantar, leitinho, deitar e dormir. 

Estamos em casa.
Estamos em casa? Ó meu Deus, estamos em casa. Agora o pequeno-almoço já não vem ter à cama pela mão da auxiliar, temos que planear e fazer o almoço e o jantar, fazer compras, tratar das roupas,  arrumar e limpar a casa... A tratar sozinhos da Inês. Será que sabemos fazer tudo como deve ser a esta pessoa pequenina e frágil que saiu da minha barriga ainda agora? 
Estou com dores, limitada fisicamente. A cabeça? A cabeça está um caos.
É o fim do mundo em cuecas.


(Mas eu não passei quase nove meses a organizar tudo?)


 - Telefona à tua mãe.
 - Queres que ela venha cá hoje?
 - Não, quero que ela venha e durma cá hoje! Precisamos de ajuda!

É importante dar o grito. 
Pedir ajuda e saber aceitá-la.
Chorar se for preciso. Claro que é preciso.
As hormonas não perdoam. 

Passou um mês sobre o fim do mundo e sobrevivemos. Naquele dia não parecia ser possível. 
A Inês tornou-se uma princesa. Tomou conta do castelo.
Nós tornámo-nos pais. Agora também nós sabemos o que é esta coisa de gostar de um filho. Sabemos mas nem por isso conseguimos explicar esta dimensão de sentimento, sem fronteira, irracional.

Perguntam-me, muitas vezes, como está a ser. 
"Está a ser maravilhoso e caótico". Como, de resto, tem que ser.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

O beijo do bebé: Mel e agulhas

Não recordo como foi o primeiro segundo. Nem o segundo, muito menos o terceiro. Diluiram-se na emoção do momento. Não fiquei logo de rastos.

O parto foi lindo. Anestesia. Um bocadinho. Agarro a mão macia da anestesista, a minha mais recente amiga e companheira e erguem-te ao nível dos meus olhos. As tuas mãozinhas minúsculas cumprimentam-se uma à outra, sofregas de vida, e choras. Sinto-te na minha vida. Mais um bocadinho e põem-te ao lado da minha bochecha: Dá um beijinho à mãe, dá!

O melhor beijo da minha vida. O quentinho da minha bebé na minha cara. A minha bebé, na minha bochecha. Quentinha.

Pergunto, com um espírito de colaboração algo estranho: Posso chorar?
Pooooode....
E caem-me as lágrimas instantaneamente, tão quentes. Como o beijo da minha menina.
Chorar de felicidade talvez seja melhor ainda do que rir.

Um bocadinho passa. E outro. E outros tantos. Os níveis de açucar estão a ser controlados. Lá longe, numa sala que não sei onde é, está a minha menina do beijo quentinho, que já não quero deixar de ver. Que já só quero ver e que não há meio de chegar. A quem quero dar de mamar. Muito, quero muito.

Não me recordo como foi o primeiro segundo em que tentaste encontrar, com um instinto natural e a desenvoltura de uma menina grande, consolo no meu peito. Nem do segundo, muito menos do terceiro. Talvez nesses primeiros minutos o romantismo de tudo o que vivíamos juntos - eu, tu e o pai - tenha sido suficiente para esconder as agulhas. Talvez.

Mas eram muitas. Tantas. Ou seriam poucas, mas muito afiadas? Seria sempre a mesma, que passava de um peito para o outro, mais veloz que uma pantera, para estar sempre lá, sempre que a minha bebé queria mamar, sempre que eu queria amamentar?

Isto é normal sra. enfermeira? Dói tanto.
Isto é normal doutora? É insuportável. Parecem agulhas fininhas a entrar, e a sair, a entrar, e a sair... a entrar...

Escorrem-me as lágrimas. Já não são quentes. Não têm temperatura porque o desespero não  merece graus certos. Olho para o tecto e respiro como posso. O B. beija-me, afaga-me os cabelos, a alma, cede-me o braço para morder, acredita comigo que tudo vai passar.
Não passa.

Mas quando passa doutora? Esta a ser muito doloroso.
Vai passar, vai passar, aguente mãe. Faça assim, faça assado, faça cozido. Aguente.
Com a subida do leite melhora. Com a subida do leite piora e depois melhora. É normal, todas passam por isto. Aguente. Aguente-se! Como é que está a fazer, deixe ver.
Faça assim, faça assado, faça cozido.
Mas, sobretudo aguente-se mãe! Faz parte!

Não aguento. Quero desistir.
As lágrimas não têm temperatura, nem cor, nem servem de nada. As agulhas, filhas da mãe, não se vão embora. Não é possível aguentar. Mas como aguentam as outras? Como? Sentem assim, estas filhas da mãe a massacrar o corpo e a alma?

Desistir. Não posso. As outras aguentaram. Quero lembrar-me das experiências más que me contaram sobre o acto romântico de amamentar. Quero-me comparar com elas. Quero alívio para esta culpa que me mata. Quero alívio para esta dor fininha, para este sofrimento refinado que as filhas da mãe das agulhas reservaram para mim.
Mas não encontro consolo na dor das outras. A dor delas, as que desistiram só mais tarde, mete quase sempre mamilos em sangue, bebés que bolsam leite com sangue - é normal, mãe, é normal, aguente, aguente-se! -, crostas assustadoras e outros horrores que, narrados, não podiam competir com as minhas agulhas. Simples agulhas. Simples?
Simples para quem?

Vou desistir doutora.
Não vai nada! Sabe que o leite materno...
Penso mas não digo em voz alta:
Sei, claro que sei. Se sei! Só por isso aguentei esta tortura tantas horas, tantos dias. Pareceram-me anos... Poupa-me. Não me martirizes mais. Cala-te. Sabes o que isto me custa? E não estou a falar só da dor fisica. Sabes o que esta decisão me rói a alma, impregnada de clichés, obviamente decidida a dar o leite mágico à sua menina, rendida ao romantismo do "beijo" do bebé no peito da mãe?
Sabes o que é uma mãe em construção a pôr em causa a capacidade de assumir a maternidade porque não aguentou um exército de agulhas, que, afinal, podem até ser só uma? Sabes? Cala-te.
Não me tortures porque só eu sei o que isto me está a doer. Tu és a médica, não me podes deixar desistir à primeira dificuldade, nem à segunda, nem à terceira. Sim, fazes bem. Mas não queiras ser cúmplice da derrota de uma menina que se está a consumir em dor. Não me julgues, não é esse o teu papel. Ajuda-me só.
E dá-me um beijinho.

Mais vale um biberon com muito amor do que uma mamada com dor.
Lembro-me da enfermeira. Da que disse isto e de outras que, entretanto, passam pelo quarto e me deixam conjuntos palavras, como resposta à minha alma nua e já roca.
Cada mulher tem o seu nível de tolerância à dor e sensibilidades diferentes, não tem que se culpabilizar se...
Amamentar não tem que ser um martírio. Os bebés crescem todos, mesmo sem o leite da mãe...E isso das doenças, nem sempre é como se diz, nada é garantido...
A maior causa de abandono da amamentação é a dor...

Mas...
Pois.
Enfrentar o exército não faz sentido quando não sobra bochecha para receber o teu beijinho quente, nem abraço tranquilo para te embalar no meu amor.

Quero beijinhos quentinhos e já está  na hora de te acordar e ver esse teu ritual delicioso a espreguiçares-te, minha princesa. Agora chamo-te assim e não acho lamechas.
És a minha princesa. E estou de guarda ao teu castelo. E digo-te mais, podem vir exércitos, que eu enfrento-os contigo e por ti.

Se for preciso, dou-lhes com os biberons que, entretanto, coloriram a cozinha da nossa casa.